Por Samuel G. Calazans Dimbarre*
O mercado de Fiagros atravessou em menos de cinco anos o que os fundos imobiliários demoraram uma década para conquistar. Com patrimônio líquido superior a R$ 40 bilhões e mais de 420 mil cotistas no início de 2026, os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas do Agronegócio deixaram de ser uma promessa para se tornarem protagonistas do mercado de capitais brasileiro.
Mas o que separa os Fiagros que estão captando recursos de investidores institucionais daqueles que ficam patinando? A resposta está na estruturação.
O crescimento que ninguém ignorou
Os números falam por si. O número de fundos operacionais saltou de 102 para 145 — um crescimento de 42% em um único ano. Os Fiagro-FIDC respondem por 48% dessas estruturas, sinalizando uma clara preferência do mercado por instrumentos de crédito estruturado.
Em setembro de 2025, os 21 Fiagros listados na B3 entregaram 130% do CDI em retorno mensal. Cotas sêniores de fundos bem estruturados ofereceram remunerações de CDI + 4% ao ano, acumulando 17,44% de retorno em 12 meses.
O apetite não é difícil de entender: o agronegócio brasileiro representa R$ 1,1 trilhão em valor de mercado. Com produtores rurais apresentando média de 70% de alavancagem, a necessidade estimada de investimento ultrapassa R$ 700 bilhões. Os bancos tradicionais e trading firms não conseguem — e não querem — suprir toda essa demanda.
O que mudou: estruturas que vão além do CRA
A primeira geração de Fiagros focou quase exclusivamente em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs). Era o caminho natural: instrumento conhecido, liquidez razoável, retorno previsível.
Essa abordagem funcionou. E ainda funciona para muitos fundos. Mas os gestores que estão captando a atenção de investidores institucionais em 2026 expandiram significativamente o escopo de suas carteiras.
As regulamentações recentes ampliaram as possibilidades de investimento para incluir:
- CPRs (Cédulas de Produto Rural) físicas e financeiras
- Imóveis rurais produtivos
- Participações societárias em empresas do agronegócio
- Créditos de carbono
- CBIOs (Créditos de Descarbonização)
Essa diversificação não é cosmética. Um Fiagro que combina exposição a crédito (via CRAs e CPRs) com ativos reais (terras e participações) e instrumentos ESG (carbono e CBIOs) oferece um perfil de risco-retorno fundamentalmente diferente daquele que aposta todas as fichas em recebíveis.
O que diferencia um Fiagro bem estruturado
A explosão de novas estruturas trouxe um efeito colateral previsível: nem todo Fiagro é igual. E os investidores institucionais — gestoras de previdência, family offices, fundos de pensão — estão cada vez mais seletivos.
Originação qualificada
O crédito agrícola brasileiro historicamente dependeu de relacionamentos bancários e de tradings. Fiagros que constroem pipelines próprios de originação, com análise de crédito granular e monitoramento contínuo, conseguem acessar operações de melhor qualidade antes que cheguem ao mercado secundário.
Diversificação geográfica e setorial
Concentrar exposição em uma única cultura ou região amplifica riscos climáticos e de preço. Os fundos que estão atraindo capital institucional distribuem suas carteiras entre diferentes safras, estados e segmentos da cadeia produtiva.
Governança e transparência
Investidores institucionais exigem relatórios detalhados, políticas de risco documentadas e estruturas de governança robustas. Fundos que tratam compliance como formalidade ficam fora do radar das grandes alocações.
Gestão ativa de inadimplência
O agronegócio é cíclico. Quedas em preços de commodities como milho e soja geraram defaults e falências entre produtores ao longo de 2025. Fiagros com capacidade de renegociação, garantias bem estruturadas e reservas de liquidez navegaram essas turbulências com perdas controladas.
Os riscos que ninguém quer discutir
O crescimento acelerado trouxe exuberância. E exuberância, no mercado de crédito, costuma cobrar seu preço.
Alavancagem excessiva dos tomadores
Muitos fundos financiaram empreendedores rurais já altamente alavancados. Quando os preços das commodities caíram, a capacidade de pagamento evaporou. Casos como o do Galapagos Recebíveis do Agronegócio ilustram o custo de uma originação pouco criteriosa.
Concentração setorial
Fiagros focados exclusivamente em grãos sofrem quando a safra decepciona ou os preços internacionais desabam. A diversificação para pecuária, açúcar e etanol, florestas plantadas e outras cadeias mitiga — mas não elimina — essa exposição.
Liquidez das cotas
Apesar do crescimento, muitos Fiagros ainda apresentam liquidez limitada no mercado secundário. Investidores que precisam sair rapidamente podem enfrentar deságios relevantes.
O momento para estruturar
Para gestoras e originadores avaliando a criação de novos Fiagros, o cenário atual apresenta uma janela interessante.
Demanda reprimida por crédito
Com a retração dos bancos tradicionais no financiamento agrícola e os limites de exposição das tradings, produtores rurais de médio porte buscam ativamente alternativas. Um Fiagro bem posicionado encontra demanda qualificada.
Sofisticação do investidor
O mercado amadureceu. Investidores — tanto pessoas físicas quanto institucionais — compreendem melhor os riscos e retornos dos Fiagros. Isso permite estruturas mais complexas e prazos mais longos.
Ambiente regulatório estável
A Resolução CVM 175 consolidou o arcabouço normativo dos fundos de investimento. Para Fiagros, isso significa previsibilidade na estruturação e maior segurança jurídica para cotistas e prestadores de serviço.
O que observar na estruturação
A diferença entre um Fiagro que atrai investidores institucionais e um que luta para captar está frequentemente nos detalhes da estruturação.
Política de investimento
Definições claras sobre classes de ativos elegíveis, limites de concentração por emissor e setor, e critérios de elegibilidade para novas operações. Políticas vagas geram desconfiança.
Estrutura de classes
A combinação de cotas sêniores, mezanino e subordinadas permite calibrar o perfil de risco para diferentes tipos de investidores. Fundos que oferecem apenas uma classe de cotas limitam seu universo de captação.
Prestadores de serviço
Administrador, custodiante, gestor e auditor com reputação sólida e experiência no agronegócio agregam credibilidade. O mercado institucional faz due diligence nos prestadores antes de olhar a carteira.
Mecanismos de proteção
Covenants, garantias reais, seguros agrícolas e estruturas de subordinação funcionam como amortecedores em cenários adversos. Fiagros sem essas proteções enfrentam volatilidade maior (e captam menos).
O caminho à frente
O mercado de Fiagros em 2026 não se parece com aquele de 2021. A sofisticação aumentou, os volumes cresceram exponencialmente e os investidores institucionais entraram com força.
Para quem está estruturando novos fundos, o momento exige atenção redobrada à qualidade da originação, robustez da governança e clareza na comunicação com investidores. Os Fiagros que prosperarão nos próximos anos serão aqueles que tratarem a estruturação não como formalidade regulatória, mas como vantagem competitiva.
O agronegócio brasileiro continua sendo um dos setores mais dinâmicos da economia. Os Fiagros são o veículo natural para conectar esse setor ao mercado de capitais. A questão não é se haverá crescimento: é quem estará posicionado para capturá-lo?
*Samuel é advogado com sólida experiência nos setores de mercados de capitais e bancário, atuando em finanças estruturadas, securitizações, fundos de investimento, M&A, Project Finance, Private Equity e Venture Capital, além de temas regulatórios e de Direito Financeiro. Lidera a área de Mercados de Capitais e Bancário no Fialdini Advogados.
